quinta-feira, novembro 12, 2009

Côr de separação .



Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta ...
_ pareciam se amar tanto _
!

Houve um tempo ...

uma casa de campo ,
fotos em Veneza ,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor ?
Gastou-se o amor no amor
?
Fartou-se o amor
?

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa , o amor
?
Escolherá objetos , morará na praia
?
Viajará na neve e na neblina
?

Tonto , perplexo , sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Affonso Romano de Sant´Anna
*
O amor ... não ... não faltou , não gastou , não fartou .
Apenas ... que é eterno enquante dura [ como diz o poeta ] .
E o mais fabuloso . A fantástica aceitação e recuperação do ser humano , até mesmo no que respeita ao amor .

6 comentários:

  1. Uma onda de tristeza branda e melancolia foi subindo à medida que ía avançando no poema. É bonito esse poema, nele o tempo passa em fundo como uma linha melódica e os instantes que aparecem, parecem e desaparecem são como temas e variações de uma música.
    luís

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  2. Luis ,
    também considero este poema lindo .

    Para mim , além de poema é como um filme , até com legendas .
    E talvez por ter acontecido assim , com brandura , hoje existe
    carinho e amizade .
    E tu , fica bem .
    Maria

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  3. Minha Querida ,
    uma das primeiras coisas que me fez admirar-te , foi a ternura que se adivinhava quando aludias a esse teu passado .
    És tão especial.

    Beijo

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  4. Mais que uma vez, ao ler alguns dos textos que vai partilhando connosco, me apeteceu dizer-lhe este bocadinho:
    "Por termos sofrido tanto
    é que a saudade está viva.
    São sete letras de encanto,
    sete letras, por enquanto,
    enquanto a gente for viva."
    Hoje não resisti.
    Beijinhos

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  5. Bom dia Paulo ,
    obrigada pela visita e palavras.

    Beijo e bfs

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  6. Olá Amiga FA ,
    obrigada pelo " bocadinho " .

    Qualquer tipo de sofrimento aceite com compreenção e sem revolta , ajuda a crescer .
    A saudade deve existir como incentivo para lutarmos e enfrentarmos , diarimente , a Vida .

    Beijo grande

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