quinta-feira, fevereiro 25, 2016
sábado, fevereiro 20, 2016
Côr de Voz do Silêncio
Aquele
que quiser ouvir a voz do Nada , o Som sem som ,
e compreendê-la , terá de aprender a natureza do Dharana . *
Tendo-se tornado indiferente aos objectos de perepção , deve procurar o Raja dos sentidos , o produtor dos pensamentos , aquele que acorda a ilusão .
A mente é a grande assassina do Real .
Porque quando para si mesmo a sua própria forma parece irreal , como o parecem , ao acordar , todasas formas que se vê em sonhos . Quando se deixar ouvir os muitos , poder -se - à divisar o Um .
O som interior que mata o exterior .
Então , e só então , a região de Asat , o falso ,
será abandonada , para chegar ao reino de Sat ,
o verdadeiro .
Antes que a Alma possa ver , deve ser conseguida
a harmonia interior , e os olhos da carne tornados cegos de a toda a ilusão .
Antes que a Alma possa ouvir , o homem tem de se tornar surdo aos rugidos como aos segredos , aos gritos dos elefantes em fúria como ao sussurro prateado do pirilampo de ouro .
Antes que a Alma posa compreender e recordar ,
ela deve primeiro unir -se ao Falador Silencioso , como a forma dada ao barro se uniu primeiro ao espírito do escultor .
Porque então a alma ouvirá e poderá recordar -se .
E então ao ouvido interior falará
A Voz do Silêncio
e dirá
que a tua alma é da terra .
e dirá
que a tua alma é da terra .
Helena Blavatsky _ excerto de A voz do Silêncio , tradução e notas de Fernando Pessoa _
*é a concentração intensa e perfeita do espírito sobre qualquer objecto interior
imagem _ Ah Xian _
sábado, fevereiro 13, 2016
Côr de uivo
Há
noites , quando os lobos se calam , escuta -se o uivo do vento , misturado com as vozes dos que com ele falam , dos visionários , dos excluídos , dos rejeitados , dos apelidados de loucos , dos que ainda acreditam nos sentimentos puros , dos que ainda se comovem , dos que ainda sonham , dos que são julgados e desprezados , dos heróis esquecidos , dos vagabundos , dos que não têm medo de dizer o que pensam , enfim , dos homens de coração .
Mas só quando o vento uiva , e há luar .
sábado, fevereiro 06, 2016
Côr de ... como dizer -te ...
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir ,
quando sucede a noite esplêndida e casta .
Não sei o que quer dizer , quando longamente
teus pulsos se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.
Quando , iniciado o campo,
o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
eu não sei como dizer-te que cem ideias ,
dentro de mim , te procuram.
Quando as folhas de melancolia arrefecem
com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente
inventada em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia ,
E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim,
te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos,
a água sobrenatural , o leve e abstracto correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão ,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios ,
sinto que me falta um girassol,
uma pedra, uma ave, qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres que
dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
Herberto Helder
imagem _ Christian Schloe _
sábado, janeiro 30, 2016
Côr de ?
_ Que
procuras ?
A verdade . . .
Perdeste - a ?!
Não , roubaram - ma . _
imagem _ Christian Schloe _
segunda-feira, janeiro 25, 2016
Côr de ainda não sei
Quando fui ferida ,
por Deus , pelo diabo , ou por mim mesma ,
_ ainda não sei _
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem ,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores ,
dedicar óperas ao Rei .
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir ,
a festejar seu dono
_ ele, um bicho que não é gente _
tanto mais eu que posso perguntar . . .
por que razão me bates?
Por isso , apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
Uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu , perdoe-me.
Adélia Prado _ Poesia reunida _
imagem _ Igor Fedorov
sábado, dezembro 26, 2015
Côr de Luís Cruz
_ Então rapariga , como vai o olho ? _
_ Bem .
_ Olha , agora se arranjares outro problema
muda de lado . . . sempre esquerdo _
Melhoras para o olho e pé .
Amanhã telefono . _
Trinta minutos depois quem telefonou foi a L .
A sua voz estava estranha .
_ Que aconteceu ? _
Fez -se uns minutos de silêncio , até que ela
com a voz cheia de lágrimas . . .
_ O nosso Luís deixou -nos _
Fiquei sem fala , na verdadeira acepção do
termo .
Telefonei mais tarde .
E o que se diz quando o nosso melhor e antigo
amigo morre ?
E quem me chamará rapariga e a quem chamarei amiguínho ?
Quem me obrigará a ler peças de teatro ,
para dar a opinião ? [ e a aflição que
sentia , quando não gostava ] .
Apesar de acreditarmos que continuas cá e que em breve nos encontraremos , ainda me sinto incrédula quanto à tua ausência , e as saudades
já se estão a formar .
Sei que não te faltará Luz . . .
aqui vai uma das tuas musica preferídas , embrulhada no abraço que não foi dado .
_ Bem .
_ Olha , agora se arranjares outro problema
muda de lado . . . sempre esquerdo _
Melhoras para o olho e pé .
Amanhã telefono . _
Trinta minutos depois quem telefonou foi a L .
A sua voz estava estranha .
_ Que aconteceu ? _
Fez -se uns minutos de silêncio , até que ela
com a voz cheia de lágrimas . . .
_ O nosso Luís deixou -nos _
Fiquei sem fala , na verdadeira acepção do
termo .
Telefonei mais tarde .
E o que se diz quando o nosso melhor e antigo
amigo morre ?
E quem me chamará rapariga e a quem chamarei amiguínho ?
Quem me obrigará a ler peças de teatro ,
para dar a opinião ? [ e a aflição que
sentia , quando não gostava ] .
Apesar de acreditarmos que continuas cá e que em breve nos encontraremos , ainda me sinto incrédula quanto à tua ausência , e as saudades
já se estão a formar .
Sei que não te faltará Luz . . .
aqui vai uma das tuas musica preferídas , embrulhada no abraço que não foi dado .
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