Quando fui ferida , por Deus , pelo diabo , ou por mim mesma , _ ainda não sei _ percebi que não morrera, após três dias, ao rever pardais e moitinhas de trevo. Quando era jovem , só estes passarinhos, estas folhinhas bastavam para eu cantar louvores , dedicar óperas ao Rei . Mas um cachorro batido demora um pouco a latir , a festejar seu dono _ ele, um bicho que não é gente _ tanto mais eu que posso perguntar . . . por que razão me bates? Por isso , apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas Uma tênue sombra ainda cobre meu espírito. Quem me feriu , perdoe-me.
Adélia Prado _ Poesia reunida _ imagem _ Igor Fedorov