
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação ...
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem ...
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo ...
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena ,
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso ...
Da fome já não se fala
_ é tão vulgar que nos cansa _
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança ?
Do frio não reza a história
_ a morte é branda e letal _
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
_ Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia ,
um filho que vai nascer
parido por asfixia ?!
_ Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação ...
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado Não!
José Carlos Ary dos Santos
O homem , faria , hoje , setenta e três anos . Os seus poemas continuam , e sem idade .