A _ cor _ dar , é preciso !
domingo, junho 09, 2019
sábado, junho 08, 2019
Côr de ensina - me
Diego não conhecia o mar.
O pai , Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul. Ele , o mar , estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia , depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor , que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar , tremendo , gaguejando , pediu ao pai . . .
__ Pai , me ensina a olhar ! _
Eduardo Galeano _ O livro dos abraços _
imagem _ Massimo Della Matta _
Foi este o meu primeiro encontro com Eduardo Galeano .
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Eduardo Galeano . O livro dos abraços
domingo, junho 02, 2019
sábado, junho 01, 2019
Côr de perdas
Quando não sei onde guardei um papel importante e
a procura se revela inútil , pergunto-me . . .
se fosse eu e tivesse um papel importante para guardar,
que lugar escolheria? Às vezes dá certo.
Clarice Lispector
imagem _ Michael Parkes. _
Comigo jamais resultaria .
È que exactamente por ser eu , é que perco , ou " deixo " que me roubem . . .
objectos , papeis mesmo importantes , ideias , amores . . .
até a vida , pela módica quantia de 500 euros , tentaram .
Mas a perda maior ... a alegria . . .
Mas esta não foi perdida , roubaram - ma , em criança !
A Existência , atenta , talvez tente compensar - me ,
emprestando - me , de quando em vez , . . . . . . . . . asas !
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Clarice Lispector . Coisitas minhas
sábado, maio 25, 2019
Côr de tristeza
Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza.
Mas quem te disse que é proibido estar triste?
A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não têm remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.
Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio.
Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida . Além de triste, irás sentir - te culpada. E tu não tens culpa de estar triste.
Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?
Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida . Além de triste, irás sentir - te culpada. E tu não tens culpa de estar triste.
Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?
Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: "tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro".
Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.
E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico . . . couve flor em brumas.
Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vaia cozendo até amaciar. E envolta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.
Héctor Abad Faciolince _ Receitas de Amor para Mulheres Tristes _
imagem _ Marta Orlowska
Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vaia cozendo até amaciar. E envolta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.
Héctor Abad Faciolince _ Receitas de Amor para Mulheres Tristes _
imagem _ Marta Orlowska
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Tristeza . Héctor A. Faciolince .
quarta-feira, maio 22, 2019
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