A _ cor _ dar , é preciso !






Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

Mahatma Gandhi

sexta-feira, abril 24, 2009

Côr de carta lilaz .


No dia seguinte ninguém morreu .

Eram onze horas quando a campaínha da porta tocou .
Algum vizinho com problemas , pensou o violoncelista ,
e levantou-se para abrir .
Boas noites , disse a mulher do camarote. Boas noites , respondeu o músico , esforçando-se por dominar o espasmo que lhe contraía a glote .
Como vê resolvi ficar _ respondeu a mulher _ Mas partirá amanhã , a isso me comprometi . Suponho que veio para me entregar a carta , que não a rasgou _ Sim , tenho-a aqui na minha bolsa . Dê-ma então _
_ Temos tempo . Atrevo-me a pedir-lhe um favor . Compense-me de ter faltado ontem ao concerto _ /
Quando ele terminou , as mãos dela já não estavam frias , as suas ardiam , por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada , quando o violoncelista perguntou... Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu. Não , ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto , despiram-se e o que estava escrito que aconteceria , aconteceu enfim , e outra vez , e outra ainda .Ele adormeceu , ela não. Então ela, a morte , levantou-se , abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano , metida entre as cordas do violoncelo , ou então no próprio quarto , debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava.
Não o fez .
Saiu para a cozinha , acendeu um fósforo , um fósforo humilde , ela que poderia desfazer o papel com o olhar , reduzi-lo a uma implacável poeira , ela que podia pegar- lhe fogo só com o contacto dos dedos , e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias , que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte poderia destruir. A morte voltou para a cama , abraçou-se ao homeme , sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia , sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras.
No dia seguinte ninguém morreu.!
*
*
*
*
José Saramago
Excerto e com alguns cortes de _ As Intermitências da Morte

2 comentários:

flor-de-lótus disse...

Minha querida amiga, este excerto do livro abriu-me o apetite para ler novamente José Saramago.
Mais uma vez obrigada por este delicioso blog.
Um beijo grande.

Lilazdavioleta disse...

Olá Amiguinha flor-de-lótus.
Sabes que ñ sou grande apreciadora de José Saramago.
Li ,apenas , três livros dele .
Este foi um deles . Mas este , foi o livro que me escolheu . E como sempre , nestes casos , gostei.
Obrigada pela visita e pelas palavras.
Tem um bom dia.
Beijo grande