A _ cor _ dar , é preciso !






Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

Mahatma Gandhi

segunda-feira, outubro 18, 2010

Côr de Mago .












*
Mago respirou fundo . Abriu o nariz e encheu o peito de ar ou de luar , não podia saber ao certo , porque a noite era clara como o dia e parada como uma montanha . Esticou-se então por inteiro , firmado nas quatro patas , arqueou o lombo , e deixando-se ficar assim por alguns instantes, só músculos, tendões e nervos, com os ossos a ranger de cabo a rabo. Arre , que não podia mais ! A quele mormaço da sala dava cabo dele. Deixava-o sem ação , bambo , mole e morno como o cobertor de papa onde dormia. A que baixezas a gente pode chegar ! Ah , mas tinha que acabar semelhante degradação ! Não pensasse lá agora a senhora D. Maria da Glória Sância que estava disposto a deixar-se perder para sempre no seu regaço macio de solteirona. Não faltava mais nada !
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_ Ouvi dizer que já nem sardinhas comes ?!
Essa agora! É todos os dias...
E que nunca mais caçaste
?
Ainda esta manhã ... _

Piadinhas do Lambão ...
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/
E , sem querer, sem poder aceitar a sua degradação, Mago entrou pelo postigo da cozinha e foi-se deitar entre os braços balofos da D. Sância
.

Mas a que propósito vinham agora as perplexidades e as recriminações ? Sim , a que propósito? Fartinho de saber que nem sequer lhe passara pela cabeça a idéia de resolver o caso doutra maneira ! Ao menos fosse sincero . De resto , que esforço concreto fizera para se libertar ? Nenhum. Ainda não havia uma dúzia de horas , ouvira a voz de Lambão como um eco da própria consciência ... E , afinal , ali estava outra vez ! E viera de livre vontade ... Ninguém o obrigara... Já roído de remorsos ? Ora, ora ! Outro fosse ele , nem aquela casa encarava mais.
E voltara ! Sim , voltara miseravelmente... E à procura de quê ?
Da paz podre , dum conforto castrador ... ...
*
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Miguel Torga _ excerto de Bichos _

Bichos _ ... porque de quatro patas , ou de duas pernas e dois braços _

1 comentário:

Nilson Barcelli disse...

Gosto da escrita do Miguel Torga.
Bela escolha, querida amiga.
Beijos.