A _ cor _ dar , é preciso !






Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

Mahatma Gandhi

sábado, abril 02, 2011

Côr de Esteban



Os primeiros meninos que viram o volume escuro e silencioso que se aproximava pelo mar tiveram a ilusão que era um barco inimigo . Mas quando ficou varado na praia descobriram que era um afogado .

Tinham brincado com ele toda a tarde , até que alguém deu voz de alarme na aldeia .

Os homens que o carregaram notaram que pesava mais que outros conhecidos e quando o estenderam no chão viram que era maior que todos os homens .

Naquela noite não saíram para o mar ... Os homens foram averiguar se faltava alguém nas aldeias vizinhas , as mulheres ficaram a cuidar do afogado .

Quando acabaram de o limpar ficaram sem respiração .

Era o mais alto , mais forte , mais viril e mais bem aparelhado que jamais tinham visto .

Não encontraram na aldeia cama suficientemente grande para o estender nem mesa suficientemente sólida para o velar .

Pensavam que se aquele magnífico homem tivesse vivido na aldeia , a sua casa teria as portas mais largas , o tecto mais alto , o chão mais firme . A sua mulher teria sido a mais feliz e teria tido tanta autoridade que teria tirado os peixes do mar pelos nomes .

Teria sido capaz de fazer tudo melhor que qualquer um dos homens da aldeia .

Quando os homens voltaram com a noticia que também não era das aldeias vizinhas , elas sentiram um vazio de júbilo entre lágrimas ...

Bendito Deus , é nosso !

E assim fizeram o funeral mais explêndido que se podia conceber .

Enquanto discutiam o privilégio de o levar aos ombros pela ladeira , homens e mulheres tiveram consciência , pela primeira vez , da desolução das suas ruas , da aridez dos seus quintais, da estreiteza dos deus sonhos , perante a formusura do afogado .

Quando o largaram no abismo da supultura , foi sem ancora para que voltasse se e quando quizesse .

Não tiveram necessidade de olhar uns para os outros para darem conta que já não estavam todos nem voltariam a estar .

Mas também sabiam que tudo seria diferente desde então ... as casas iam ter portas mais largas , tectos mais altos e soalhos mais firmes , iam pintar as fachadas de cores alegres , escavar nascentes nas pedras e semear flores nas fragas , para que quando os passageiros dos grandes barcos passassem ... ficassem deslumbrados com a aldeia de ... Esteban .



Gabriel Garcia Marquez _ O afogado mais bonito do mundo . [ com alguns cortes ]

Helene knoop

1 comentário:

AC disse...

Ma-ra-vi-lho-so!

Beijo :)