Recomeça Se puderes, sem angustias e sem pressa. E os passos que deres Nesse caminho duro do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances não descanses.
De amor nada mais resta que um outubro. E quando mais amada mais desisto Quanto tu mais me despes mais me cubro E quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro Porque se mais me ofusco, mais existo. Por dentro me ilumino, sol oculto Por fora ajoelho, corpo mistico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse Dos teus beijos. Etérea, a minha espécie Nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço, Mais de terra e fogo é o abraço Com que na carne queres reter-me jovem .!
Nasceu Foi numa cama de folhelho entre lençois de estopa suja num pardieiro velho. Trinta horas depois a mãe pegou na enxada e foi roçar nas bordas dos caminhos manadas de ervas para a ovelha triste. E a criança ficou no pardieiro só com o fumo negro das paredes e o crepitar do fogo, enroscada num cesto vindimeiro, que não havia berço naquela casa.
E ninguém conta a história do menino que não teve nem magos a adorá-lo nem vacas a aquecê-lo, mas que há-de ter muitos Reis da Judeia a persegui-lo. Que não terá coroas de espinhos mas coroas de baionetas postas até ao fundo do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino. Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo .!
Cada virtude possui propriedades particulares ... O amar traz-nos calor A sabedoria traz-nos luz A verdade traz-nos liberdade. Sim, porque a verdade tem uma ligação com a vontade e com a acção. Portanto, os nossos actos serão tanto mais correctos, quanto mais agirmos com essa mesma verdade. E, só a partir daí, é que nos podemos chamar de... Seres livres .!
A vida É uns deveres que trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas ... há tempo . Quando se vê, já é sexta-feira . Quando se vê, passaram sessenta anos ... Agora, é tarde demais para ser reprovado. E se me dessem ... um dia, uma outra oportunidade, Eu nem olhava para o relógio. Seguia sempre, sempre em frente ...
E iria jogando pelo caminho, a casca dourada e inutil das horas .!
Abre os olhos e encara a vida ! A sina tem que cumprir-se ! Alarga os horizontes ! Por sobre lamaçais alteia pontes Com as tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada da vida que fascina Caminha sempre em frente , além dos montes ! Morde os frutos a rir ! Bede das fontes ! Beija aqueles que a sorte te destina !
Trata por tu a mais longínqua estrela , Escava com as mãos a própria cova E depois, a sorrir deita-te nela !
Que as mãos da terra façam, com amor, Da graça do teu corpo, esguia e nova, Surgir à luz, a aste de uma flor .! ...
" Não sei o que queres dizer com glória " , disse Alice. Humpty-Dumpty sorriu , com desprezo . " Claro que não ... até que eu te diga . Quero dizer , - aí tens um belo argumento que te arruma - .! " " Mas , glória , não significa ... -um belo argumento que te arruma - " , objectou Alice . " Quando eu uso uma palavra " , disse Humpty-Dumpty , em tom de escarnio , " ela significa o que eu decidir que significa ... nem mais , nem menos . " " O problema é " , disse Alice , " se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes . " " O problema é " ... disse Humpty-Dumpty , " Quem é que manda ... Apenas isso . ! "
Esta imagem há muito tempo que me persegue e fascina. Apesar do crescimento espiritual ser grande, ao ponto de se elevar com toda a delicadeza e ao mesmo tempo com a firmeza corporal que advem de um ser livre, utiliza algo terreno, o guarda chuva, para que seja apenas um levitar e não uma fuga ... .!
Põe A bondade como base da tua morada A justiça como medida O amor como deleite A sabedoria como limite A verdade como luz. Quem sabe ... se agirmos sob este paradigma, não teremos maior possibilidade de agir ... .!
Medo da morte ... A maioria dos humanos tem medo da morte. Mas este, não tem a ver com a morte em si, mas com o desconhecido. E assim, temos medo de sofrer, disto e daquilo... mais concretamente , De viver . E se não conseguirmos compreender a causa desse medo e não formos capazes de nos libertar dele, então ... não é significativo estarmos ... Vivos ou mortos .!
Dizem Se encontrares um escravo a dormir, não o acordes, pode estar a sonhar com a liberdade . Não ... Se encontrares um escravo a dormir, acorda-o, para lhe falares da liberdade .!
Quando, Nada parece dar certo, vou ver o cortador de pedras, a martelar uma rocha. Talvez cem vezes, sem que uma única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra abre-se em duas. E eu sei que não foi aquela que conseguiu ... Mas todas as que ... vieram antes ... .!
Tu já me arrumaste no armário dos restos. Eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos. E das nossas memórias, começamos a varrer As pequenas gotas de felicidade Que já fomos. Mas no tempo subjectivo, Tu és ainda o meu relógio de vento, A minha máquina aceleradora de sangue. E por quanto tempo ainda, As minhas mãos serão para ti O nocturno passeio de um gato no telhado ... .!
Deixa-me sentar ao teu colo a ver passar O rio ... Deixa-me assim estar sem pensar , No vazio ... Abraça-me apenas E eu não sentirei mais frio . Deixa-me sonhar que é amor Aquilo que te vejo no olhar ... E deixa-me assim estar ( tão longe de casa e dos mimos e da esperança ) No aconchego do abraço Que tens para me dar .!
Tenho quarenta janelas Nas paredes do meu quarto. Sem vidro nem bambinelas.
Posso ver através delas, O mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol Por outra a luz do luar Por outra a luz das estrelas Que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea Como um vapor de algodão. Por aquela a luz dos homens, Pela outra escuridão.
Pela maior entra o espanto, Pela menor a certeza, Pela da frente a beleza Que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança De quatro lados iguais, Quatro arestas, quatro vertices Quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho Que as vigias são redondas E o sonho afaga e embala À semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza Por aquela entra a saudade E o desejo, e a humildade E o silêncio, e a surpresa E o amor dos homens, e o tédio E o medo, e a melancolia E essa fome sem remédio, A que se chama poesia.
E a inocência e a bondade E a dor própria e a alheia E a paixão que se incendeia E a viuvez e a piedade. E o grande passaro branco E o grande passaro negro Que se olham obliquamente Arrepiados de medo.
Todos os risos e choros Todas as fomes e sedes Tudo alonga a sua sombra Nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto Quem vos pudesse rasgar. Com tanta janela aberta, Falta-me a Luz e o Ar ... .!
Há dias, encontrei na porta do prédio onde moro um vaso. Na altura, estava a precisar de um, para colocar uma muda de planta que me tinham oferecido. Por isso, e, como em principio, não tinha dono, trouxe-o. Plantei a dita muda e comecei a tratá-la com o carinho que dedico a todas as minhas plantas. Dias depois, surpresa ... ! Sai da terra, não a especie que esperava, mas este coração. Agora a minha dúvida ... Vinha no vaso, em forma de semente, e eu não me apercebi ... ou A muda que me deram, era um coração ainda sem raiz e em fase de crescimento ... Abreviando ... Tenho um coração, num vaso, mas que não me pertence e que pode estar a fazer falta a alguém. Portanto, se souberem de um ser que ande triste, com dificuldade de amar, e não saiba a razão, digam-lhe ... Que tenho um coração num vaso e que lho oferecerei, com toda a ternura ... caso o queira .! Obrigada .!