
Sei de uma criatura antiga e formidável
Que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas.
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo.
Gosta do colibri, como gosta do verme.
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme.
E caminha na terra imperturbável, como pelo vasto arealum vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo, vem a folha, que lento e lento se desdobra.
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra.
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto, e é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto.
Começa e recomeça uma perpétua lida.
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte ... Eu direi que é a vida. !
Machado de Assis
_ E nós que diremos ... Sabemos tão pouco, ou , mesmo nada, de ambas ! _
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