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Passeando pelos jardins da memória , descubro que
as minhas recordações estão associadas aos sentidos .
A minha tia Teresa , a que se foi transformando em anjo e morreu com indícios de asas nos ombros , está sempre presente e ligada ao cheiro dos rebuçados da violeta . Quando esta dama encantadora aparecia de visita , nós as crianças corriamos ao seu encontro e ela abria com gestos rituais a sua velha mala , tirava uma pequena caixa de lata pintada e dava - nos um rebuçado cor de malva .
E partir de então , todas as vezes que o aroma inconfundível de violetas se insinua no ar , a imagem dessa tia santa , que roubava flores nos jardins alheios para levar aos moribundos do hospital , regressa intacta à minha alma .
Quarenta anos depois soube que era esse o selo de Josefina Bonaparte , que confiava cegamente no poder afrodisíaco daquele aroma fugidio que tão depressa assalta com uma intensidade quase nauseabunda , como desaparece sem deixar rasto para logo voltar com renovado ardor .
As cortesãs da Grécia antiga usavam - no antes de cada encontro amoroso , para perfumar o hálito e as zonas erógenas .
No Tantra , filosofia mística e espiritual que exalta a união dos opostos em todos os planos , desde o cósmico até ao mais infímo , e na qual o homem e a mulher são espelhos de energias divinas , a violeta é a cor da sexualidade feminina , e por isso a adoptaram alguns movimentos femininos .
Isabel Allende _ pequeno excerto de Afrodite , histórias , receitas e outros afrodisíacos _
Rene Magritte
1 comentário:
Olá Maria Violeta ,
um texto interessante .
Beijinho e boa semana
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