A _ cor _ dar , é preciso !






Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

Mahatma Gandhi

quarta-feira, março 04, 2009

Côr de olhos de poeta .



Ela entrou , deitou-se no divã e disse _ acho que estou a ficar louca _.

Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.

_ Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria!

Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes , cortar cebolas.

Acto banal sem surpresas.

Mas , cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles , tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.

De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista!

E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto.

_ Ela se calou, esperando o meu diagnóstico_ .

Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales" , de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e disse ... _ Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas _.

Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro ... 'Rosa de água com escamas de cristal'.

Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".


Rubem Alves

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