A _ cor _ dar , é preciso !






Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

Mahatma Gandhi

quinta-feira, novembro 05, 2009

Côr de que vos deixo .



Peço às altas competências
perdão , porque mal sei ler,
p´ra aquelas deficiências ,
que os meus versos possam ter .
*
Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria ,
mas dão - me as horas amargas
lições de filosofia .
*
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo ,
calai - vos , que pode o povo
qu´rer um mundo novo a sério .
*
Como a morte é um segredo ,
quem lá sabe se por sorte ,
os mortos têm mais medo
da vida que nós da morte ?
*
Gosto de apertar a mão
áspera dos calos que tem ,
também as côdeas de pão
são ásperas , mas sabem bem .


António Aleixo _ Este livro que vos deixo _

4 comentários:

Luis Filipe Gomes disse...

O Aleixo! É o exemplo desse conhecimento profundo, e dessa coragem de deitar cá para fora que falavamos ontem.
Não sei poesia de cor,infelizmente, a não ser algumas quadras do António Aleixo:

"Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria
Mas deram-me as horas amargas
Lições de Filosofia."

Mudando de poeta, e o Jorge de Sena? Vêm falando muito dele ultimamente. Andei procurando mas ainda não achei um poema em que ele fala de como hão de lhe louvar os ossos os filhos dos que o preteriram e trataram mal em vida.
O Sena sabia quanto valia e sabia Quanto dedicada e empreendedora era a sua Mécia.
Gostas do Sena?
Beijos,
Luís

Lilazdavioleta disse...

Olá Luis ,
neste caso gosto e com admiração .
Também gostaria de ler o que ele escreveu ? sobre como _ lhe louvar os ossos os filhos dos que o preteriram e trataram mal em vida _ A sua obra , neste momento está esgotadíssima . Tenho , ou tinha , a sua correpondência com Sofia de Mello Breyner . Quando se emprestam livros , acontece ...
E gosto ,com muita admiração ,da sua Mulher .
Se puderes , caso não o tenhas feito , vê o programa _ Câmara Clara _ que lhe foi dedicado , no dia 1 . Gostei .( tenho uma hiperligação , aqui .)
Beijos para ti , também .
Maria

Luis Filipe Gomes disse...

Muito obrigado pela tua generosidade tão oportuna e pronta.
O poema de que eu falava chama-se "Camões na Ilha de Moçambique", podendo ser o Camões a falar, de facto não deixa de ser o Jorge de Sena quem fala.

"Podeis roubar-me tudo
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas,os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, penetrar
Em recessos de amor para que sois castrado.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes
Não importa nada:
Que o castigo
Será terrível.
Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado por meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que,só por vós, sem roubo, haverieis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que o vosso esqueleto há de ser buscado,
Para passar por meu. E para outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo."


Sem palavras. O Jorge de Sena era também um notável leitor do Futuro.

Eu penso que se encontram livros dele aqui por baixo. O último foi um diário saiu há dois anos talvez. É um livro de leitura rápida, tal a velocidade alucinante com que o Sena vive tudo e tudo quer ver e verificar e investigar nas viagens que fez à Europa. Ía de um lado para o outro ver uma lápide visitar uma catedral, procurar uma ruína, apanhando comboios,autocarros, saltitando entre transportes vários, escrevendo aos amigos e sempre trabalhando, relacionando factos e figuras históricas portuguesas que ele ía revelando.
O Jorge de Sena fez coisas que são imperdoáveis: Escreve um só romance e é logo dos melhores alguma vez escritos. Hoje há as mais variadas pessoas a escrever romances e isso até se poderia desculpar. Agora um tipo que é só um Engenheiro investigar Camões e revelar um Camões diferente do morto que todos queriam que Camões fôsse. Um tipo que vai ensinar literatura sem a benção dos Doutores das Letras, e depois ainda faz a poesia que faz e traduz e não pára de escrever ensaios e meter o nariz em tudo o que já estava empacotado...É demais!
Luís

Lilazdavioleta disse...

Luis ,
destes seres , só uma palavra ...
iluminados .

Obrigada pelo poema magnífico que aqui deixas , e que não conhecia .

Fica bem ,
Maria